PASSO-A-PASSO PARA DESENVOLVER E REDIGIR UM ARTIGO CIENTÍFICO
Um artigo bem escrito tem um objetivo bem definido.
Um artigo que simplesmente discorre sobre um assunto, por exemplo, o uso do procedimento P no tratamento da condição C, sem um objetivo claro, provavelmente não será aceito para publicação sem correções. Isto porque leitores e pesquisadores em busca de informação querem saber exatamente o que o artigo que vai ser lido traz.
Se o autor utliza o procedimento P para tratar a condição C, provavelmente acredita em sua eficácia. Então, pode-se dizer que o objetivo de seu estudo é testar se o procedimento P é eficaz no tratamento dos pacientes com a condição C.
Preferencialmente, o objetivo deve ser exposto como uma pergunta a que se pode responder “sim” ou “não” ou uma afirmativa que vai ser comprovada ou negada. Esta afirmativa é chamada “hipótese nula” ou “hipótese inicial”.
Alguns exemplos:
- Determinar se existe correlação entre dois fatores (hipótese nula: existe correlação entre os dois fatores);
- Demonstrar que a enfermidade x não é consequência do fator y (hipótese nula: a enfermidade x não é consequência do fator y);
- Provar que é possível detectar a incidência de x pelo método y (hipótese nula: a incidência de x pode ser detectada pelo métido y).
Em alguns casos, o objetivo pode ser exposto claramente sem o uso de hipótese nula:
- Comparar os resultados entre o procedimento x e y.
No entanto, para ter certeza de que seu objetivo é “objetivo” e não subjetivo, tente formulá-lo como uma hipótese nula, ainda que você prefira escrever de outra forma:
- Testar se o procedimento x produz resultados superiores ao y.
Outros tipos de artigos tem objetivos que não podem ser formulados como uma pergunta de resposta “sim” ou “não”. Ainda assim, o autor deve estar certo de deixá-los claros.
Uma revisão de literatura, por exemplo, pode ter como objetivo comparar conclusões ou simplesmente expô-las. Se a revisão busca comprovar a eficácia de um tratamento ou verificar se uma conclusão de outro artigo se aplica em casos diferentes, então a hipótese nula pode ser usada (verificar se o tratamento x é eficaz, verificar se a conclusão x pode ser validada).
A apresentação de uma nova técnica, por exemplo, pode ter como objetivo demonstrar como o uso da técnica T produz resultados satisfatórios nos casos K.
Devem ser evitados objetivos muito amplos, como analisar os resultados obtidos ou abordar o assunto em questão. Uma análise ou abordagem não é o objetivo em si, e sim o meio de se chegar a ele. Analisamos ou abordamos buscando alguma conclusão. É esta conclusão que deve ser o objetivo.
A exceção é o relato de caso. Este tipo de artigo não requer objetivo explícito. A introdução deve simplesmente descrever sucintamente o caso, sua relevância e o tratamento empregado. Ainda assim, um objetivo pode ser definido (divulgar um tratamento aplicado com bons resultados em determinado caso, criar uma referência de diagnóstico para um caso raro).
- Pesquisar a literatura anterior
Antes de escrever um artigo, é necessário conhecer o que já foi publicado sobre o tema. Isto irá permitir que o autor molde seu artigo para preencher lacunas ainda não exploradas, tornando-o mais interessante e relevante. Também ajuda a evitar acusações de plágio, já que o autor irá deixar de candidatar à publicação um artigo muito semelhante a outro já publicado.
Além disto, menção à literatura anterior irá enriquecer o texto e situar o leitor sobre a conjuntura atual da pesquisa sobre o tema. É difícil discutir um tema sem conhecer e citar o que já se conhece sobre ele.
Se o autor encontra artigos semelhantes ao que pretendia publicar, deve modificar seu objetivo para diferenciá-lo. Um artigo que busca testar se o procedimento P é eficaz no tratamento da condição C pode ser reformulado para testar outra hipótese, por exemplo:
- se o procedimento P é mais eficaz que o método M no tratamento da condição C;
- se o procedimento P é eficaz para o tratamento da condição M em pacientes de determinado grupo (biotipo, faixa etária, portadores de determinada deficiência, etc..);
- se determinada variação no procedimento P influi em sua eficácia no tratamento da condição C.
Com raras exceções, muitos artigos já foram publicados sobre qualquer assunto em que podemos pensar. Porque publicar mais um?
Fazendo referência à literatura existente, o autor deve demonstrar qual a contribuição trazida por seu artigo aos leitores da revista em que ele pretende publicar.
Se já existem muitos artigos sobre o tema e o autor não souber modificar o seu para torná-lo relevante, ele deve ler com atenção os artigos anteriores. Em todos eles, em comparação com seu artigo:
- Os estudos são válidos?
- As amostras são significativas?
- As condições em que foram realizados se aplicam em seu país?
- Existe algum aspecto não abordado?
- Existe alguma diferença significativa no material ou método utilizado?
- As conclusões são equivalentes?
Se seu artigo traz algum aspecto distinto em relação aos anteriores, este aspecto deve ser valorizado, como uma distinção de seu estudo.
Um artigo também pode ser considerado relevante se o tema nunca tiver sido explorado no país de publicação ou de forma acessível ao público.
O método deve ser definido de modo a alcançar o objetivo.
Ele deve produzir resultados que, quando analisados de forma objetiva, irão comprovar ou negar a hipótese nula, ou irão responder ao objetivo do artigo.
Assim, ao comparar dois procedimentos ou métodos, deve-se estabelecer parâmetros objetivos para analisar os resultados de cada um e compará-los. Ao verificar se um procedimento é eficaz, deveremos definir o que é eficácia com critérios mensuráveis.
Ou seja, ao testar uma hipótese, deve-se estabelecer critérios objetivos pelos quais determinar se a hipótese se confirma.
No caso de um estudo que analisa uma amostra, a seleção da amostra deve ser feita com critério, de modo a criar uma representação significativa da população que se pretende estudar. Para isto, é aconselhável conhecer características da população como um todo (faixa etária, sexo, origem, biotipo,...) e reproduzir estas características na amostra, proporcionalmente.
No nosso exemplo: Se as estatísticas mostram que 60% da população portadora da condição C tem mais de 50 anos, a amostra de um estudo que pretende testar a eficácia do procedimento P em seu tratamento também deve ter 60% dos participantes com mais de 50 anos. Se 80% são mulheres, esta proporção deve ser respeitada na amostra.
Este estudo também deve estabelecer um parâmetro mensurável de eficácia
ex: desaparecimento de todos os sintomas em até 3 meses após o procedimento.
Neste caso, como pode haver alguma melhora sem desaparecimento total dos sintomas, convém estabelecer um sistema de medida
ex: um sistema de pontos em que 100 pontos significa desaparecimento total do sintoma, zero significa nenhuma melhora, e assim pontuar a mellhora de cada sintoma em cada paciente. Pela média de pontos para cada paciente e sintoma, estabelece-se um percentual de eficácia do tratamento.
Indo além, caso os sintomas possam ser mensurados de forma objetiva,
ex: os sintomas são taxa sangúinea de determinada substância, capacidade respiratória ou cardíaca, peso corporal, área afetada,etc..
o sistema de pontos deve ser aplicado a estas medidas.
ex: 100 pontos se taxa de colesterol = ou < 200mg/dl, 0 se colesterol = ou > 240mg/dl. 240-200=40, 40/100=0,4, portanto 1 ponto para cada 0,4mg/dl acima de 200mg/dl.
Além disto, se um sintoma é mais relevante que outros, deve ser aplicada uma média ponderada para se chegar a uma porcentagem de eficácia.
ex: o principal sintoma da condição C é o aumento do colesterol, mas 1/3 dos portadores também apresentam leve insuficiência respiratória. Neste caso, para cada paciente, multiplicamos os pontos que medem a melhora do colesterol por 3 e, somando aos que medem a melhora da capacidade respiratória, dividimos por 4.
É muito importante que o método seja descrito de forma extremamente detalhada, especificando, entre outros:
- material usado, incluindo fabricante, modelo, etc.;
- critério de seleção da amostra, seguido de justificativa ;
- tamanho e descrição da amostra obtida;
- tipo de tratamento ou procedimento aplicado, com descrição detalhada;
- substâncias ou drogas utilizadas, incluindo dosagem, administração, etc.;
- períodos e método de observação;
- método de coleta de dados;
- método de análise de dados ou estatísticas;
A falha em descrever um pequeno detalhe pode impedir o leitor de comparar seu artigo com outros ou de aproveitar seus resultados em sua pesquisa ou prática clínica.
Evite o uso e descrições de análises estatísticas complexas. Se forem necessárias, explique-as em termos leigos.
No caso de estudos em que partes da amostra são tratadas de formas distintas, a totalidade de tais partes deve ser informada em porcentagem e números absolutos.
Informações obtidas ao longo do estudo devem ser apresentadas na seção “Resultados”. Na Introdução, inclua apenas informações com as quais o estudo iniciou-se.
Os resultados devem ser analisados tendo em vista o objetivo. No entanto, deve-se evitar “forçar” os dados para obter a conclusão desejada.
Se o método foi definido adequadamente, o estudo terá produzido resultados objetivos, que, na maioria dos casos, levarão de forma lógica à comprovação ou negação da hipótese testada.
Em alguns casos, no entanto, os resultados são inconclusivos, ou seja, não permitem comprovar ou negar a hipótese testada de forma pontual. Nestes casos, o autor deve buscar verificar se a não-conclusão se deve a alguma deficiência do estudo ou se realmente não é possível alcançar uma. Neste último caso, o autor pode optar por publicar o estudo de qualquer forma, podendo inclusive convidar leitores a colaborar com sugestões para o desenvolvimento do estudo, que possam resultar em conclusão.
Na discussão, a autor deve buscar citar artigos já publicados sobre o assunto, comparando suas conclusões com os resultados alcançados. Também pode expor suas idéias e observações, relacionando-as aos resultados.
Em nosso exemplo, suponhamos que a média dos pontos obtidos por cada paciente na melhora de cada sintoma foi de 78. Logo, os resultados mostram que o procedimento P é eficaz no tratamento da condição C, com uma taxa estimada de eficácia de 78%. Se desejarmos explorar melhor os resultados, podemos também analisar a melhora de cada sintoma. Assim, se a média da melhora no sintoma S foi de 100% e do sintoma N foi de 28%, podemos dizer que o procedimento P é especialmente mostrou especial eficácia na reversão do sintoma S, mas não do sintoma N. Se artigos anteriores mostraram a eficácia de outros procedimentos em relação ao sintoma S, é ideal comentá-los.
Muitos bons artigos trazem a conclusão embutida na discussão, sem uma sessão separada. No entanto, expor a conclusão em uma sessão a parte facilita a pesquisa de cientistas que buscam artigos específicos ou que fazem revisão da literatura sobre o tema. Eles saberão exatamente onde buscá-la.
A conclusão deve ser sucinta e não deve trazer nenhuma informação ou comentário novo, que não tenha sido exposto nas sessões “Resultado” ou “Discussão”. Em poucas frases, a conclusão retoma o objetivo do artigo e informa o que foi alcançado no estudo. Idealmente, termina sugerindo caminhos por onde a investigação pode ser continuada.
A linguagem de um artigo deve ser formal e científica, mas não prolixa nem esdrúxula. Evite jargões, palavras muito difíceis, frases muito longas ou complexas. O objetivo é informar sem complicar. Se seu artigo for difícil de ler, muitos leitores desistirão no meio do caminho. Busque clareza, fluência, coerência.
Resultados numéricos, quando possível, devem ser dados em porcentagem e números absolutos (ex: “45/90 ou 50% da amostra”). Evite o uso de termos técnicos matemáticos muito complexos. Se for necessário incluí-los, procure complementar com uma explicação leiga.
Sempre que possível, exponha dados em tabelas e gráficos, e não ao longo do texto. Os recursos visuais facilitam o entendimento. Isto serve para a composição da amostra, método de mensuração, cronograma do estudo, resultados, etc..
Fotografias e imagens também são um bom auxílio. Use, mas não abuse das fotografias. Não se deve mostrar cada paciente de sua amostra, apenas os mais representativos da média ou que demonstram um detalhe específico. Importante: os pacientes fotografados devem assinar um termo de consentimento ao uso de suas imagens. Um modelo deste termo pode ser obtido no site da Indexa.
Imagens são um bom recurso para demonstrar um procedimento clínico ou cirúrgico. Elas devem complementar a descrição deste e não substituí-lo. Imagens não devem ser inclusas sem a autorização do desenhista ou do proprietário.
Ensaios clínicos devem buscar seguir os parâmetros CONSORT, que são também auxílios para obter um relato transparente e completo do ensaio, resultando em maior qualidade do artigo. Este parâmetros podem ser encontrados em português no site da Indexa (www.indexaonline.com.br/revistas/consort.asp)
Abaixo seguem as sessões de um artigo, brevemente descritas. Esta divisão é sugerida para um artigo experimental, mas outros tipos de artigo podem usá-la como guia na organização do texto.
Título
Deve ser uma forma simplificada do objetivo. No nosso exemplo, um bom título seria: “Tratamento da condição C pelo procedimento P” ou variações dele. Se não se trata de um artigo original, isto deve ficar claro no título.
Resumo
Expõe de forma sucinta o fato que motivou o artigo, seu objetivo, método, resultados e conclusão. Aspectos inovadores devem ser enfatizados. Um bom resumo tem aproximadamente 300 palavras.
Em muitos métodos de consulta, apenas o resumo está disponível e, portanto, este deve ser fiel ao conteúdo do artigo, objetivo e completo.
Sempre acompanhado de sua versão em inglês.
Palavras-chave/ Keywords
Mínimo 3, máximo 10. Sempre no idioma da publicação e em inglês.
Utilize termos DeCS (http://decs.bvs.br) e MeSH (www.nlm.nih.gov/mesh/filelist.html).
Introdução
Situa o leitor de forma imparcial sobre a atual conjuntura científica ao redor do assunto, citando e comentando a literatura anterior. Informa o tema sobre o qual o artigo discorre e justifica a realização do estudo, demonstrando sua relevância.
Informações obtidas ao longo do estudo devem ser apresentadas na seção “Resultados”. Na Introdução, inclua apenas informações com as quais o estudo foi iniciado.
Método
Descrição precisa e detalhada do material e método. Não fala sobre os resultados.
Resultados
Apresenta os resultados. Detalhamento de informação não essencial à compreensão do texto deve ser incluso em apêndice, evitando atrapalhar a fluência da leitura.
Discussão
Recomenda-se começar com um sumário dos principais resultados. Analisa estes resultados e o que eles significam para a hipótese inicial ou objetivo. Literatura anterior deve ser comentada e comparada. Evitar afirmações que não podem ser comprovadas pelo estudo ou pela literatura de referência.
Conclusão
O autor afirma se a hipótese testada foi ou não confirmada. Sugere possibilidades para dar seguimento ao estudo ou para mais artigos sobre o tema.
Referências
Seguindo normas estabelecidas pela Biblioteca Nacional do Congresso dos EUA
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